Ana Raquel Serejo

Somos uma família muito grande, mas a família escolhida pelo coração ainda é maior.
As nossas passagens de ano são sempre na casa de uns “tios” que têm um terreno muito grande. Nesse terreno, há desde coelhos a raposas e javalis.
Todos os anos, alguém leva um amigo pela primeira vez ☺️
Então não podemos faltar à noite da praxe, a noite da caça aos gambuzinos.
É um dia que fica destinado conforme a lua, normalmente andamos a “tratar” de tudo com um ou dois dias de antecedência.
Batemos a mata com os cães e os novatos, para sabermos onde estão as tocas dos coelhos e deixamos marcado.
Durante a noite fazemos mais uma volta, em dois grupos separados, ao mesmo tempo mas um para cada lado, com um apito. Vamos andando e apitando. Aliás, os novatos é que apitam, com ritmo certo.
No dia da caçada, antes de escurecer mas já no lusco fusco, colocamos bancos e sacos de plástico abertos em frente às tocas dos coelhos marcadas. Acendemos a fogueira no mato para ponto de referência. Quando escurece, por volta das 22h/23h, um dos “veteranos” guia o novato ao seu posto. Sentam-se e ficam no escuro sozinhos, a apitar o apito de forma certa e ritmada. Conseguimos uma vez juntar 3 novatos e havia dois apitos e um balde… Então o som no meio do mato era “pii piii puumm”
Nunca os deixamos sozinhos, pois é também zona de javalis e estamos todos preparados para uma eventualidade.
O facto de estar escuro, permite nos garantir a segurança dos novatos e ver o ar de medo e ansiedade deles, quando ouvem barulho nos sacos, que não é nada mais nada menos que nós a atiramos pedras e paus.
Ao fim de uma hora e também dependendo do frio, termina a caçada. Antes de acender as lanternas, damos aviso que vamos fechar os sacos e terminar.
Sacos fechados, mandamos os novatos para a fogueira, para aquecerem. Pomos os sacos fechados na arca congeladora e esperamos pelo dia seguinte.
Contamos a seguir na fogueira a aventura, decidimos como vamos cozinhar os gambuzinos para o petisco do almoço e comemos chouriço e pão torrado, sempre com as guitarras a acompanhar.
Muitas gerações já foram à caça dos gambuzinos e muitas mais irão.
Pelo menos assim eu espero, e espero poder levar os meus filhos quando forem mais crescidinhos 😍